Palavras depois da posse na Paróquia Nossa Senhora do Carmo em Campo Belo

26 de fevereiro de 2011

 

"In verbo autem tuo laxabo rete!" (Lc 5,5). "Em atenção à tua palavra lançarei a rede" (Lc 5,5).

 

Hoje, ao assumir esta Paróquia eu o faço na obediência que prometi no dia da minha ordenação, há 23 anos, quando o nosso querido Bispo emérito Dom Francisco Barroso Filho, então bispo diocesano, me perguntou: "prometes obediência a mim e aos meus sucessores?" Confesso que este foi um dos momentos no qual prestei muita atenção e respondi "sim" e com convicção. Sabia que não era uma resposta formal, ou de praxe, pois durante todo o tempo de seminário procurei amadurecer a consciência sobre este voto, que, dentre os demais, a saber, pobreza e castidade, é o mais importante e difícil de viver. Porque a nossa obediência é, na verdade a Deus, mas Ele é representado pela autoridade humana e às vezes somos tentados a pensar que o chamado, a ordem dada pode não vir de Deus, porque como diz aquele adágio: "homo sum et nihil humani a me alienum puto". Sou homem e tudo o que é humano não me é alheio. Assim, somos tentados a pensar que a autoridade age de modo puramente humano, talvez porque percebemos em nós esta terrível tendência de, muitas vezes agir por capricho, ou visando o próprio interesse.

Como Pedro naquela ocasião às margens do Lago de Genesaré, também tive a tentação de me fazer de entendido e resistir a uma ordem do Mestre Jesus, aqui, no caso representado na pessoa do bispo Diocesano, que também é passível de erro, mas pela unção que recebeu, acredito que neste caso também ele age "in persona Christi (na pessoa de Cristo)", ao buscar, como o Bom Pastor, promover, através dos presbíteros, o bem do rebanho, "que é de Deus" (cf. 1Pd 5,2). Deste modo, um pouco relutante, atitude até então impensável a estas alturas dos meus 23 anos de sacerdócio, aceitei o chamado para servir nesta Paróquia.

Como Pedro tenho também minhas convicções, meus pontos de vista, meu saber, mas eles não podem ser maiores do que a Palavra do Mestre Jesus Cristo, do que o projeto de Deus, por isso, como ele digo "In verbo autem tuo laxabo rete!" (Lc 5,5). "Em atenção à tua palavra lançarei a rede" (Lc 5,5).

Vou lançar aqui, nesta Paróquia, a rede para pescar e quem sabe re-pescar homens e mulheres para se tornarem também conosco discípulos missionários de Cristo a serviço do Reino, a serviço da salvação "do homem todo e de todos os homens" (João Paulo II). Confesso que no esporte da pescaria não tenho nenhuma habilidade, aliás, nem gosto. Por outro lado, não possuo nem de longe a habilidade, a convicção, o ardor de Pedro. Minha rede é pequena, o impulso de minhas mãos alcança pouca extensão desse imenso mar que é a comunidade; minhas forças e minha sabedoria são poucas para atingir com mais profundidade o imenso mar, que é o mundo e, sobretudo, o fundo do mar do coração humano que precisará de mim e que vou poder fazer muito pouco, pois é assim que tenho me sentido nestes 23 anos de sacerdócio, vividos com grande entusiasmo, mas muitas vezes entre dificuldades e contradições, não porque a graça não fora suficiente, mas porque insuficiente é a minha capacidade e a minha abertura à graça de Deus. Mas aqui me recordo as belas palavras do nosso querido Papa Bento XVI na sua primeira aparição na sacada do Palácio Apostólico, após a sua eleição para a Cátedra de Pedro: "Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes". Se ele, Cardeal J. Ratzinger, maior teólogo vivo da atualidade, se sente um instrumento insuficiente, o que eu posso dizer de mim mesmo? Talvez, que sou um quase instrumento!

Penso que pouco saberei e poderei fazer, mas confesso que vou tentar e quando me acabarem as forças só poderei repetir com o salmista: "Completai em mim a obra começada, ó Senhor,...!" [Sl 137(138)]. É claro que não coloco a confiança em mim mesmo, visto que, como diz Santo Ambrósio, "A confiança em si mesmo é vã, mas a humildade dá muito fruto...". E é com humildade que venho a vocês, porque "a humildade e o respeito fazem parte da novidade do anúncio e que a coisa mais elementar que devemos reconhecer é justamente esta: a Igreja é d'Ele. A novidade do anúncio cristão deve ser oferecida sempre de maneira humilde e respeitosa aos destinatários do anúncio. Não é uma questão de oportunismo tático-estratégico. É uma consequência própria do fato de que a verdade anunciada pelos cristãos é um dom, não uma posse deles", estas são palavras do teólogo emérito do Vaticano, Cardeal George Cottier, OP. E, repetindo seu mestre, o cardeal Charles Journet disse: "A pretensão de demonstrar com os nossos argumentos a verdade da fé, quando o coração não é habitado pela caridade, pode suscitar escândalo e objeção".

Venho, pois, a vocês mais para aprender do que para ensinar, porque quem pensa saber tudo está longe, muito longe da verdadeira sabedoria. "O segredo do bom mestre é ser sempre um bom discípulo" (cf. Alceu Amoroso Lima).

Nestes 23 anos de sacerdócio sempre me acompanha minha Mãe, Dona Zica, já conhecida de alguns aqui. Nesta paróquia não será diferente ela vem comigo, já agradeço antecipadamente a acolhida que dão a ela. Ela é para mim como Maria e eu tento ser para ela como João, o evangelista.

Meus agradecimentos aos meus irmãos sacerdotes aqui presentes.

Agradeço a todos os amigos que vieram de Oliveira, da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, da qual já sinto saudades, e dos amigos das outras comunidades. Agradeço aos irmãos e irmãs de outras comunidades daqui de Campo Belo pela presença.

(Agradeço à imprensa presente, às autoridades constituídas por participarem desta celebração de minha acolhida como pároco desta comunidade).

Agradeço o carinho e a acolhida dos meus novos paroquianos. E digo lhes: já faço parte desta Família de Nossa Senhora do Carmo. Já me sinto em casa e quero ser "onmia onmibus", "tudo para todos" (cf. 1Cor 9,22), para tentar salvar alguns!"

Minha gratidão imensa à comissão organizadora desta celebração pela disponibilidade, dedicação e carinho com que a prepararam.

Caríssimos, caríssimas, iniciar uma nova tarefa é sempre um desafio, por isso, servem-me de consolo e incentivo estas palavras do Beato John Henry Newman:

"Cristo olha para ti, sejas tu quem fores. Ele te chama pelo teu nome.
Ele te vê e te compreende, Ele que te criou. Tudo o que há em ti, Ele o sabe: todos os teus sentimentos e os pensamentos que te são próprios, as tuas inclinações, os teus gostos, a tua força e a tua fraqueza.
Ele te vê nos teus dias de alegria, como nos dias de sofrimento. Interessa-se por todas as tuas angústias e recordações, por todos os entusiasmos e desânimos do teu espírito.
Ele te envolve com os seus braços e te ampara; levanta-te e te faz descansar.
Contempla o teu rosto, quer quando sorrias, quer quando chores, na saúde ou na doença.
Olha para as tuas mãos e para os teus pés, ouve a tua voz, o batimento do teu coração, até mesmo o teu respiro.
Tu não te amas mais do que Ele te ama".

Por isso, "In verbo autem tuo, Domine, laxabo rete!" (cf. Lc 5,5). "Em atenção à tua palavra, Senhor, lançarei a rede".

 

Que conosco esteja "o supremo pastor" (1Pd 5,4) e valha-nos sempre a proteção e a intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria, Virgo Flos Carmeli, e que com ela e por meio dela, pastores e fiéis, possamos atingir juntos o verdadeiro "Monte que é Cristo" e atender-lhe o seu conselho: "fazei tudo o que ele vos disser" (Jo 2,5). Amém.

Pe. Donizete Antônio de Souza - Pároco

 

 

 

 

 

 

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