Natal: Liturgia de Deus

A palavra "liturgia", de origem grega, pela sua própria etimologia, significa antes de tudo qualquer "ação, obra, serviço" em favor das pessoas. Puxando este sentido originário da palavra para a teologia, surpreendentemente, poderíamos afirmar que "Liturgia" seria toda a "ação, obra, serviço" que Deus realizou e realiza em favor da humanidade, fazendo de nós participantes da sua vida divina, e que tem seu ponto alto quando a comunidade cristã se reúne (é reunida pelo Senhor!) para celebrar (tornar célebre, manifestar presente!) a divina Liturgia, sobretudo quando ouvimos a Palavra de Deus proclamada e celebramos a Eucaristia.  

Uma das maiores obras de Deus em favor de todos nós, uma das maiores "liturgias" de Deus, portanto, foi quando ele nos "presenteou" seu próprio Filho para ser o nosso Salvador. Desde muito tempo, Deus vinha se mostrando um "tremendo apaixonado" pela nossa humanidade. E, enfim, depois de um longo período de "noivado", em todo o Antigo Testamento, Deus acabou se "casando" com a humanidade, na pessoa de Maria. Realizou-se a promessa, realizou-se a profecia (cf. Is 62,1-5!). E deste "casamento" resultou - por obra do Espírito Santo! - uma "gravidez" e, por esta "gravidez", foi-nos dado Jesus, Filho de Deus, Emanuel (Deus-conosco!) (cf. Mt 1,18-25!): "O Verbo eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1,14). Que maravilhosa obra de Deus em favor da humanidade!

Por aí já dá para entendermos a "Liturgia do Natal". Não pensemos em primeiro lugar nas cerimônias das festas natalinas, e sim na "Liturgia" do Natal, isto é, no enorme bem que Deus fez para nós, através do "sim" de Maria: O Verbo eterno de Deus "mergulhou", de cabeça, para dentro do imenso e abismal mistério da nossa existência humana. É muito amor por nós! Indescritível solidariedade!... Aquele que criou todo este infindo universo povoado de milhões e milhões de astros e galáxias, ele se faz pequenino como nós sobre este "minúsculo" planeta Terra.

Deste "mergulho" fundo e solidário de Jesus na nossa condição humana, até a morte (e morte numa cruz!), resultou enfim a definitiva vitória do amor, da solidariedade, da vida, sobre este nosso chão: Ressurreição e dom do Espírito! E daí resultou também que nós, humanos, pelo Batismo fomos elevados à dignidade de filhos e filhas de Deus (cf. Jo 1,12), membros do corpo de Cristo (cf. 1Cor 12,12-31), participantes da vida divina, comensais do banquete celeste, "herdeiros da vida eterna" (Tt 3,4). Pelo dom do Espírito, fomos transformados em "geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista", para proclamar as obras admiráveis daquele que nos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa (cf. 1Pd 2,4-9; 9; Ap 1,5b-6; 5,6-10; 20,4-6). Família de Deus, Corpo de Cristo, Igreja, novo e verdadeiro "povo sacerdotal"!... Quanto bem Deus fez para nós!... Quanta "liturgia".

E nós, Corpo de Cristo, família de Deus reunida em assembléia para celebrar a divina Liturgia do Natal, dando graças ao Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo poderoso, proclamamos jubilosos: "No mistério da encarnação do vosso Filho, nova luz da vossa glória brilhou para nós. E, reconhecendo a Jesus como Deus visível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos" (Prefácio do Natal I). Ou também: "Ele, no mistério do Natal que celebramos, invisível em sua divindade, tornou-se visível em nossa carne. Gerado antes de todos os tempos, entrou na história da humanidade para erguer o mundo decaído. Restaurando a integridade do universo, introduziu no Reino dos Céus o homem redimido" (Prefácio do Natal II). E ainda: "Por ele, realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá vida nova em plenitude. No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos" (Prefácio do Natal III).

Então, depois de dar graças, participamos da verdadeira Ceia de Natal, na qual o humilde Senhor se entrega a nós como alimento. Feito pão e feito vinho, corpo e sangue dele oferecidos, nós o acolhemos com nosso "amém" e a disposição sincera de formarmos com ele um só corpo bem unido. A Liturgia do Natal atinge então seu ponto alto quando, comendo e bebendo desta Ceia. Celebramos a comunhão total do divino com o humano, celebramos a nova "cidadania" (a cidadania do céu!) que nos foi conquistada. Participamos do banquete comemorativo da grande obra do Salvador, pela qual nos tornamos eternos. Por isso, após a comunhão, rezamos: "Ó Deus de misericórdia, que o Salvador do mundo hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina, nos conceda também sua imortalidade" (Oração depois da comunhão).

A saber, no Natal invocamos Deus como "misericordioso", pois fez do seu Filho ressuscitado, um eterno "hoje" em cada Eucaristia que celebramos e, cada vez que comungamos deste "hoje", fazemos a experiência de comunhão com a vida divina, com sabor de eternidade. E que assim seja sempre!

Não é o "aniversário" de algo que passou que celebramos no Natal, mas a presença viva do Verbo eterno do Pai que se faz Liturgia viva (permanente serviço libertador) no chão de nossa história. Por isso, em toda celebração litúrgica da festa de Natal, proclamamos o permanente "hoje" do mistério: "O Senhor disse: 'És meu Filho, eu hoje te gerei'".  "Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz!". "Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós. Ele será chamado admirável Deus, Príncipe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim". E também: "Revelastes hoje o mistério do vosso Filho como luz para iluminar todos os povos no caminho da salvação".

 Liturgia do Natal, presença do eterno "hoje" salvador, como obra da Trindade! Presença com sabor de Páscoa, pois é a partir da Páscoa que podemos viver o Natal como festa da luz, da vida, da paz!

Da parte de todos nós, cristãos e cristãs, filhos e filhas de Deus, no Filho nascido em Belém, ressuscitado em Jerusalém, vivo no seu Corpo que somos todos nós, cuja imagem maior é a Eucaristia, não resta senão honrar a "dignidade" a que fomos elevados, levando adiante a missão de Jesus Cristo, vivendo a Justiça, o Amor e a Paz.

 

Adriano Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

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