O sacerdócio no antigo testamento de Abraão até Moisés

Quando Abraão, chamado por Deus, abandona o seu país, não é a terra apenas que abandona, mas os seus deuses, as suas tradições, a sua cultura. Talvez isto fosse o mais difícil de abandonar. É provável que na terra de Abraão existisse sacerdócio organizado. Não sabemos. Mas sabemos que na Mesopotânia e no Egipto, o rei, sumo sacerdote, tinha um exército de clérigos perfeitamente organizados, tão organizados que formavam uma casta. Nada disso há entre os patriarcas. Não existe nem templo, nem existem sacerdotes especializados deste Deus que, mais tarde, a si mesmo se chamou Deus de Abraão de Isaac e de Jacob.

O Livro do Génesis mostra-nos que Abraão, já no caminho da terra que Deus lhe iria mostrar, constrói um altar ao Senhor. (Gen. 12,7: Deus apareceu a Abraão e disse-lhe: Darei esta terra à tua descendência. Ele construiu aí um altar ao Senhor que lhe havia aparecido. Quando chega perto de Betel, construiu outro altar ao Senhor: "construiu aí um altar ao Senhor e invocou o nome do Senhor". (Gen. 12,8). Repare-se que o altar é testemunho de ação de graças e lugar de invocação do nome do Senhor. Quando se instala junto ao carvalho de Mambré, em Hebron, constrói outro altar ao Senhor. (Gen. 13,18). Isto significa que Abraão se assume como sacerdote do seu povo, não apenas para prestar culto ao novo Deus que o orienta, mas também para lhe agradecer.

É interessante notar que no meio desta caminhada aparece um sacerdote estranho, que oferece em ação de graças pela vitória de Abraão sobre Codorlaomor, um sacrifício de pão e vinho. Melquisedeque, assim se chamava o sacerdote, era rei de Salém que era uma cidade estrangeira, que teria um sacerdócio organizado. O sacrifício que oferece é único em todo o A.T e prefigura o sacerdócio de Jesus Cristo. É um sacrifício de pão e vinho. À semelhança do Filho de Deus, continua a ser sacerdote para sempre. Diz o Génesis que era sacerdote do Deus Altíssimo, o que significa que o Deus Altíssimo era já conhecido e tinha culto na cidade de Salém. Mas este sacerdócio não era o sacerdócio de Abraão, nem de Isaac nem de Jacob, que à semelhança dos povos antigos, exercem um sacerdócio familiar.

Um outro ponto importante neste "sacerdócio" de Abraão é o sacrifício de Isaac. Deus pede o melhor que Abraão possui em sacrifício. Abraão não duvida e prepara tudo para oferecer o filho em sacrifício ao seu Deus. É outra prefiguração do sacrifício do Filho de Deus. É diferente isto, porque já não é apenas a oferta do homem, mas a resposta a um pedido de Deus. (Gen. 22) Isaac, que herda as promessas de Deus feitas a Abraão, ergue um altar ao Senhor: "O Senhor lhe apareceu naquela noite e lhe disse: Eu sou o Deus de teu pai Abraão. Não temas, porque eu estou contigo…Isaac construiu aí um altar e invocou o nome do Senhor".

(Gen. 27,24,25) De novo a ação de graças e a invocação do nome do Senhor.
Jacob herda as promessas de Deus. Deus abençoa-o e ele levanta um altar ao Senhor e deixa entender algo mais do que os seus antecessores. No sonho que tem, Deus diz-lhe: "Eu sou o Senhor, Deus de teu pai Abraão e Deus de Isaac".

(Gen. 28,13) E quando acorda, Jacob exclama: "O Senhor está realmente neste lugar e eu não o sabia. Quão terrível é este lugar! É nada menos que a Casa de Deus e a Porta do Céu. Jacob levantou-se de manhã, pegou a pedra que lhe havia servido de travesseiro, colocou-a como estela e derramou azeite na ponta. E chamou o lugar, Casa de Deus". (Gen. 28,16-19). É a primeira vez que na Sagrada Escritura se fala de Casa de Deus. É o início de uma consciência da proximidade de Deus, começa a nascer e a descoberta de que Deus pode estar em qualquer lado.

No capítulo 35 do Génesis, v. 6, se diz que Jacob ergueu um altar em Luza de Canaã e deu ao lugar o nome de Betel, porque Deus se lhe havia revelado quando fugia de seu irmão. É evidente que estas ofertas rudimentares, estes altares levantados, ou em honra do Senhor, ou como invocações do nome do Senhor são manifestações de um sacerdócio familiar, que se vai desenvolver com Moisés até se organizar no sacerdócio levítico.

Os textos que se referem ao sacerdócio no AT atestam a necessidade de uma separação. Para entrar em contato com as realidades sagradas, os levitas são postos à parte: não têm herança entre os filhos de Israel (Nm 18,23). O que queremos ressaltar é que no AT o sacerdote era alguém separado para a função.

Até o recenseamento dos sacerdotes é feito separadamente do povo (Nm 3,15; 26,62). Havia toda uma série de eventos que mais o separavam do outros: banho ritual, investidura, unção, sacrifícios (Ex 28-29; 39; 40,13-15; Lv 8). Em tudo isso aparecia o sumo sacerdote como um ser elevado acima dos mortais comuns. O sacerdócio torna o homem no AT diferente de todos os homens, os paramentos sagrados exprimem sua glória sem paralelos (Eclo 45,7-13; 50,5-11).

 

Transcrito - Pe. António Morais (Jornal Opinião)
Ir Francisca SSpS
 

 

 

 

 

 

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